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História e Jornalismo: cada macaco no seu galho?*

1 de fevereiro de 2010

Quando ingressei na faculdade de História, em 2005, um dos primeiros debates que se estabeleceu foi: um jornalista pode escrever sobre História? Por quase unanimidade, a resposta foi não, o jornalista não poderia escrever sobre História. Um dos mais fortes argumentos contra a “invasão” do jornalista no espaço do historiador, seria que àquele faltava a crítica necessária e, principalmente, o método. À revelia dessa “proibição” da Academia, porém, os livros sobre História que mais vendem no Brasil são justamente escritos por jornalistas, dentre os principais figuram os de autoria de Eduardo Bueno, autor de Náufragos, Traficantes e Degredados; Brasil: Terra à Vista; e Capitães do Brasil, entre outros, e o de Laurentino Gomes com o recente e premiado 1808, para citar apenas dois (e sem falar nas biografias onde também reinam os jornalistas). Saliente-se que, na maioria dos casos, os autores se valem de vastas pesquisas bibliográficas e incluindo fontes primárias, algo sacralizado pelos historiadores.

Mas não é só do lado de cá que o nó aperta. Esse mesmo corporativismo verificado na Academia encontra espelho na profissão do jornalista, que, de vilão no caso da História, passa a vítima no mundo virtual. A Revista Imprensa, em edição recente, traz na capa a frase “Blogueiro não é jornalista” (com grande destaque para o “não é”). Com isso, defende a categoria do que considera avanço dos que não poderiam ser considerados – ou confundidos – como jornalistas. Estes seriam “treinados” para informar; blogueiros, não.

Essa espécie de corporativismo é de fácil compreensão, considerando ser óbvio que cada profissional queira “puxar brasa pro seu assado”, no dito popular. Mas ora, tanto historiadores quanto jornalistas, parecem estar perdendo terreno em seus tradicionais nichos profissionais, por distintas razões. Esse tipo de reação, contrária ao que consideram “invasão”, nestes casos, estaria justificado. O interessante é que o debate, ao invés de estar centrado nos motivos de estarem perdendo seu próprio terreno, se limita ao inócuo “pode” versus “não pode”. Se para o jornalista falta o preparo necessário para empreender uma pesquisa histórica dita “séria”, de cunho “científico” ao historiador falta a acessibilidade e facilidade na comunicação que é tão comum aos textos jornalísticos. É preciso que se abrande o academicismo, é preciso que suprima boa parte das longas e enfadonhas notas de rodapé, é preciso que terminem com a citação da citação da citação, fazendo com que páginas e mais páginas pareçam mais uma lista telefônica (tal a proliferação de sobrenomes referenciados) do que um livro de História. E acabam chatos, e acabam presos aos muros da academia. Se dentro dela, e para ser legitimada como de cunho científico, a linguagem deve ser “científica”, para conquistar leitores é necessário fazer concessões, depurações, adaptações, senão o conhecimento histórico será sempre distante e estranho ao resto da sociedade. Que é, convenhamos, quem paga os impostos que custeiam a maioria das bolsas que possibilitam a pesquisa “científica” neste país. Quanto aos jornalistas, não deveriam ter medo dos blogueiros. Deveriam também aprender com eles. Como categoria, deveriam repensar as maneiras como se comunicam com o universo virtual. O que faz de um blog um sucesso? Inspirem-se. É preciso sempre ter em mente que um leitor da geração RSS não é o mesmo que lia os jornais matutinos, nas épocas em que só existia a imprensa escrita. O mundo está em constantes transformações, e adaptar-se às novas demandas é imperioso neste começo de século. Em última análise, é melhor entender o que não funciona mais e corrigir, do que taxar de que pode ou não pode. Indiferente aos protestos, os “invasores de mercado” continuarão a invadir, se tiverem competência e aceitação, com ou sem resistência. E cada macaco ocupará o galho que quiser.

*Artigo originalmente publicado no Jornal Agora (Rio Grande – RS) edição do dia 23/10/2008 sob o título “Cada macaco no seu galho?”

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